Alívio pós-traumático

20130613095751491254e.jpg

Link para imagem ampliada:

http://imgsapp.sites.uai.com.br/app/noticia_133890394703/2013/06/13/143696/20130613095751491254e.jpg

O Alívio Rápido de Traumas e do Estresse Pós-Traumático

Um dos desafios do mundo atual é conviver com a violência e com os acidentes nas cidades, cada vez mais de causas não naturais. Até há poucas décadas, violência urbana era tema de filmes que mostravam histórias ocorrendo em algumas poucas cidades do planeta. Hoje basta você estar numa cidade brasileira, e não precisa ser das maiores. Morria-se mais de problemas do coração – hoje os acidentes automobilísticos são a principal causa mortis no Brasil. Em 10 anos dobrou o número de mortes com arma de fogo atingindo, na sua maior parte, jovens até 26 anos. Nos hospitais dos grandes centros do Brasil, 4 entre 5 atendimentos de urgência, na faixa etária de 15 a 24 anos, são por ferimento de armas de fogo. Sequestros, sequestros relâmpagos, violência sexual, desastres, perdas de pessoas por causas não naturais, assaltos, o testemunho de violências, cenas de horror, além de perdas e calamidades causadas por enchentes e vendavais, hoje freqüentes em certas cidades – talvez o ser humano nunca tenha estado exposto a tantas situações de ameaça e estresse quanto atualmente.

Para muitas e muitas pessoas, passar ou mesmo testemunhar esses incidentes tem deixado seqüelas profundas. A equipe do Traumatology Institute (2002) afirma que, de fato, ninguém que passe por um desastre ou veja um fica indiferente a isso. A maioria das pessoas se controla e funciona depois de um desastre ou de uma experiência dolorosa, mas sua efetividade diminui. Na realidade o estresse, reações de tristeza e baixa disposição após um trauma são reações normais a uma situação anormal. As pessoas têm alterações em sua estabilidade emocional e harmonia física e, conseqüentemente, em todo seu funcionamento pessoal, profissional e social. Por muito tempo algumas dessas vítimas não conseguem retornar à vida normal, carregando consigo lembranças e sensações que gostariam de ver muito longe de si. Passam a ser vítimas do chamado Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

As abordagens convencionais para lidar com o estresse pós-traumático, ainda as mais utilizadas, envolvem o uso de drogas e psicoterapias. As drogas aliviam os sintomas, muitas vezes às custas de efeitos colaterais, mas não aliviam as lembranças e os freqüentes conflitos emocionais que mantém a experiência viva no íntimo de cada um. As psicoterapias, com maior freqüência longas, costumam deixar a pessoa dependente de ajuda e ainda com sofrimentos às vezes por meses a fio.

Desde a década de 70 várias novas técnicas e abordagens ao tratamento do estresse pós-traumático vêm sendo desenvolvidas e aplicadas com enorme índice de sucesso. Partindo de princípios e conhecimentos novos e utilizando de novas formas conhecimentos milenares, estas novas abordagens têm oferecido às vítimas de experiências traumáticas a possibilidade de retorno à vida normal em tempo tão curto quanto de alguns minutos a três sessões. Neste artigo irei abordar algumas destas novas abordagens, incluindo exemplos de casos que tive a oportunidade de atender.

Os tipos de ajuda

Existem dois tipos de práticas de ajuda que podem ser oferecidas e são úteis às pessoas vítimas de experiências traumáticas e incidentes críticos. Traumatologia de Campo – Trata da atuação em desastres, no campo onde o incidente ocorreu. É a modalidade de ajuda mais antiga, praticada desde os primórdios do homem, quando pessoas ajudavam outras que passaram por momentos dolorosos. Desde os tempos mais antigos estes incidentes são derivados basicamente de duas causas: as naturais, como enchentes, incêndios e vendavais, e as causas humanas, como guerras, acidentes e assaltos. Textos antigos como a Bíblia relatam momentos em que vizinhos, amigos e familiares ofereciam seu apoio e conforto a pessoas que passavam por tais experiências. Nos últimos 50 anos, a evolução das práticas de tratamento e as descobertas sobre formas especiais de comunicação e seus efeitos sobre o estado mental das pessoas permitiu a caracterização clara deste tipo de ajuda. A Traumatologia de Campo trata das práticas de primeiro-socorro emocional, focando a prevenção e a minimização da emergência dos Transtornos de Estresse Agudo e Transtornos de Estresse Pós-Traumático, desenvolvendo suas ações no local e ambiente onde o incidente crítico ocorreu. Traumatologia Clínica – Oferecida por profissionais da saúde física e mental, para-profissionais e terapeutas num contexto de atendimento terapêutico, a Traumatologia Clínica trabalha com indivíduos e eventualmente suas famílias nos casos em que o incidente crítico trouxe efeitos dramáticos, desorganizadores e até patológicos para aquelas pessoas. O traumatologista clínico ajuda as pessoas envolvidas direta ou indiretamente com um evento traumático, focalizando o alívio dos sintomas do estresse pós-traumático e o retorno à normalidade da vida. O foco deste artigo são técnicas de traumatologia clínica.

O alívio das lembranças e do transtorno de estresse pós-traumático

Nos últimos 30 anos foram desenvolvidas novas variedades de abordagens e técnicas para o atendimento clínico de vítimas de traumas e desastres. Estas técnicas eram pouco conhecidas, foram desconsideradas e até mesmo ironizadas ou ridicularizadas em alguns círculos de profissionais e pesquisadores. No início dos anos 90 os professores Charles Figley, PhD e Joyce L. Carbonell, PhD, da Florida State University, realizaram um estudo sobre as relativamente novas abordagens breves para o tratamento de traumas e fobias. O estudo comparou a eficácia de quatro terapias não pertencentes ao acervo de técnicas convencionais em 156 clientes. Todas elas eram de eficácia reconhecida e tidas como técnicas de resultados rápidos – Dissociação Visual-Cinestésica, TFT (Thought Field Therapy), EMDR (Eye Moviment Desensitization and Reprocessing) e TIR (Traumatic Incident Reduction). O estudo foi objeto de um artigo de Mary Sykes Wylie na revista The Family Therapy Networker, publicado em 1996. O artigo teve grande repercussão e o olhar dos profissionais começou a se abrir para o que estava sendo desenvolvido em consultórios e em pesquisas não acadêmicas. O artigo colaborou para que as técnicas ficassem mais conhecidas, uma vez que são metodologias singulares que fogem ao paradigma da formação médica e psicológica convencional.

Vou comentar a seguir três técnicas para alívio de traumas emocionais, duas das quais integraram a pesquisa da Florida State University. Dissociação Visual-Cinestésica (DVC)

A Dissociação Visual-Cinestésica (DVC) foi desenvolvida por Richard Bandler, um dos criadores da Programação Neurolingüística – PNL. É uma das técnicas para cura de traumas e fobias mais conhecidas, pois faz parte do currículo do treinamento em PNL, uma abordagem à mudança e à comunicação humana hoje mundialmente difundida (veja, por exemplo, em O´Connor e Seymour, 1995). Para neutralizar a memória de um evento traumático, a DVC vale-se da mudança na forma com que uma pessoa representa mentalmente um evento. O cliente é colocado inicialmente num estado mental de dissociação da memória do evento traumático, de maneira que seja possível a ele lembrar-se do incidente sem entrar num estado emocional alterado. Para tal, o cliente imagina que vê o evento como se fosse um observador assistindo à cena do ocorrido numa pequena tela de cinema ou televisão, colocada a grande distância de si. Diversas outras pequenas manobras e operações mentais ajudam a manter este estado de dissociação junto com a visão da cena. O propósito neste momento é acionar a memória do acontecido, porém de tal maneira que as emoções e o desconforto não apareçam. Após a revisão segura e relativamente confortável de todo o evento ocorrido, o cliente é convidado a imaginariamente entrar em si mesmo (associar-se) na cena após o incidente crítico ter acontecido. A seguir o cliente tem a experiência de voltar no tempo rapidamente, revivendo o evento ao contrário, do fim para o seu princípio. Esta vivência rápida e no sentido temporal oposto aos eventos reais altera a estrutura da memória, permitindo a lembrança do incidente sem as reações emocionais intensas anteriores. O efeito da técnica pode ser metaforicamente descrito como sendo o de “desorganizar” a seqüência histórica da memória, separando o registro visual do evento de seu registro emocional, eliminando a ligação entre o fato e os estados emocionais que ocorreram na ocasião.

Muito usada também para cura de fobias, é uma técnica muito útil em lembranças com uma ou poucas cenas marcantes, ou com uma cena representativa do problema. Este autor teve a oportunidade de utilizá-la no caso de A, uma mulher que ao chegar em casa deparou-se com a cena do marido que havia se suicidado com um tiro. Quando a atendi, três semanas após o incidente, ela comentou que desde então em nenhum momento conseguiu esquecer o que vira, tendo sempre a imagem da cena em sua mente, grande e com detalhes. Estava em estado depressivo, com dificuldades de concentração e com o sono abalado. Nosso encontro durou cerca de 45 minutos, a maior parte dos quais conversando e testando o resultado da DVC, que durou cerca de 8 minutos.

Outra aplicação foi com T, durante uma demonstração da técnica num seminário. T, uma mulher de 65 anos, quando criança morava na Itália e, aos cinco anos, estava numa das áreas da ocupação alemã nos últimos meses da segunda guerra mundial. Durante cerca de seis meses ela ouviu quase diariamente aviões voando baixo e passando por sobre sua cabeça, lançando bombas em uma área próxima. Nos sessenta anos seguintes ela teve pesadelos semanais, ouvindo ainda o som dos bombardeios muito nítido e forte em sua mente. Desde então, qualquer som que lembrasse bombas era uma tortura para ela. A demonstração durou cerca de 15 minutos. Era o mês de junho. Três semanas depois T estava indo a uma festa de São João, pela primeira vez em sua vida depois de mais de 50 anos no Brasil – e com tudo que tem uma festa de São João, inclusive as bombas.

Integração de Movimentos Oculares

Steve Andreas e Connirae Andreas são dois dos mais respeitados pesquisadores, divulgadores e autores da PNL. Uma de suas grandes contribuições foi a divulgação de como o movimento dos olhos podem ser utilizados para reprocessar experiências marcantes, permitindo processos inconscientes de integração, compreensão e fechamento de experiências (NLP Comprehensive, s.d.). Uma das descobertas da PNL, pesquisada por Robert Dilts (1976), foi a ligação entre posições dos olhos e ativação de processos sensoriais internos. Simplificadamente, quando os olhos estão voltados para cima há a ativação do pensamento visual; olhos voltados para os lados ativam o pensamento auditivo; e olhos voltados para baixo ativam mais intensamente a capacidade de sentir sensações. Seguindo instruções do terapeuta, o cliente movimenta seus olhos em várias direções determinadas enquanto mantém o pensamento no incidente vivido. Esta movimentação parece permitir que áreas do cérebro, antes não ativadas durante a experiência crítica em si e nas lembranças subseqüentes, possam agora ser incluídas no processamento do incidente. Com a integração na experiência de todos os sistemas sensoriais, o resultado final é o alcance de um estado de compreensão e freqüentemente de serenidade diante das lembranças. Técnica simples de ser explicada aos clientes, é especialmente útil em casos em que haja uma série de incidentes. Foi a técnica que utilizei em uma única sessão na continuação do tratamento de T., dois meses após ela ter-se livrado do medo de bombas. Sua mente ainda registrava com muita dor algumas experiências daqueles dias de guerra. Uma era o som dos motores dos aviões voando baixo por cima de sua casa. Outra eram as imagens de pedaços de aviões atingidos caindo do céu em chamas, cena que durante toda sua vida era relembrada semanalmente em pesadelos. A terceira lembrança foi um momento de desespero numa carroça com sua irmã, debaixo de forte chuva e sem ver qual o caminho a tomar, pois a água alagava tudo, e os aviões se aproximando para jogar as bombas. E. e M., um casal de namorados que voltava tarde da noite para casa dela, ao estacionarem foram abordados por três adolescentes que entraram no carro e começaram a revistar seus pertences. Em seguida fizeram E. dirigir até um caixa eletrônico. Mas E. conseguiu dissuadi-los dizendo que o caixa estaria fechado, pois já passava das 22 horas. Eles acreditaram nisso e rodaram ainda por cerca de duas horas, com os seqüestradores fazendo ameaças e brincadeiras. E. processou bem a experiência, mas M comentou que a partir de então começou a ter dificuldades para dormir, seu sono era interrompido duas ou três vezes por noite, além de ter com freqüência pesadelos com brigas e assaltos e não conseguir mais sair tranqüilamente à noite. Não mais voltou a morar no local próximo ao seqüestro. Após o tratamento de uma sessão, suas vidas voltaram ao normal.

Terapia do Campo do Pensamento – TFT (Thought Field Therapy)

Das terapias de resultados rápidos, talvez esta seja a mais inusitada e surpreendente. Dentre as quatro técnicas do estudo de Figley e Carbonell, da Florida State University, a Terapia do Campo do Pensamento – TFT foi aquela que obteve os melhores escores, incluindo o maior índice de sucesso e maior rapidez de resultados. Em estatísticas de demonstrações públicas do TFT, a técnica foi aplicada pelo seu autor (em 1985-1986) e um terapeuta aluno seu (em 1995-1996) a 66 clientes cada um em 59 programas de radio, ambos com 97% de sucesso e tempo médio de aplicação de 4,34 e 6,04 minutos por cliente, respectivamente.

O TFT foi o precursor e iniciador da série de terapias e técnicas hoje estudadas dentro da nova abordagem da Psicologia da Energia (Gallo, 1999). Baseando-se no tradicional modelo chinês dos meridianos de energia, Roger Callahan, PhD, seu criador, diz que também as emoções são o resultado de bloqueios na circulação de energia através dos meridianos do corpo – os mesmos meridianos utilizados, por exemplo, na acupuntura (Callahan, 1996). O desbloqueio desta energia se dá pela percussão em certos pontos de determinados meridianos, realizada pelo cliente com seus próprios dedos. O TFT utiliza uma seqüência específica desses pontos para cada emoção ou condição emocional a ser trabalhada, incluindo aí uma seqüência específica para traumas e fobias. Esta seqüência é reciclada algumas vezes com a ocasional inclusão de alguns procedimentos de percussão em pontos de outros meridianos, de acordo com as reações que o cliente vai demonstrando na evolução do tratamento. Geralmente estas reações têm relação com perturbações energéticas que tendem a bloquear o processo de recuperação da circulação da energia.

Com freqüência, certos estados emocionais são dissipados em poucos minutos, incluindo estados resultantes de inúmeras exposições a experiências traumatizantes. Um exemplo foi a experiência de M, uma mãe de 38 anos que chegou ao meu consultório dizendo que tinha muito medo de perder os filhos. Não conseguia deixar tranqüilamente seu filho de seis anos no colégio nem ficar sem ligar para o celular do filho de 13 anos para saber como ele estava. Caso ele não a atendesse ela já ficava pensando no pior. Durante a noite qualquer ruído estranho, por menor que fosse, já a despertava e ela corria para o quarto dos filhos para ver como estavam. Este medo começara há quase 12 anos, quando seu filho do meio, então com dois anos, teve uma parada respiratória numa clínica médica e foi levado por ela às pressas para o hospital em frente â clinica, chegando já cianótico. A imagem da corrida para o hospital e dos médicos debruçados sobre o menino estavam constantemente com ela. Seu tratamento durou cinco minutos. G é um adolescente de 14 anos. Há um ano, quando passava num espaço estreito entre um caminhão e um muro, foi abordado por um rapaz que lhe roubou o boné, deu um empurrão e disse para ir embora se não lhe dava um tiro. Desde então não conseguia andar numa rua sem movimento ou quando via alguns rapazes mal encarados usando bonés virados para trás vindo em sua direção. Já imaginava que seria agredido ou roubado. Ficava ansioso, trêmulo e com falta de ar. “Parece que quanto mais medo eu tenho, mais parece que eles ficam me encarando, mesmo que eu não queira fazer nada”, disse. Embora um caso relativamente simples, seu tratamento durou uma sessão porque seu processo de reequilibração estava bloqueado com pensamentos do tipo “se eu deixar esse medo ir embora terei outros problemas” e “eu não devia sentir esse medo”, que necessitaram tratamento específico. * * * Estas e outras técnicas terapêuticas como a Terapia da Linha do Tempo – TLT, TIR – Traumatic Incident Reduction (Redução de Incidente Traumático), EMDR – Eye Moviment Desensitization and Reprocessing (Dessensibilização e Reprocessamento pelo Movimento Ocular), EFT – Emotional Freedom Technique (Técnica da Liberdade Emocional) e BSFF – BeSetFreeFast (sem tradução), têm permitido o alívio rápido do sofrimento de um sem número de pessoas. Pessoas que não necessitam mais carregar dentro de si aquela frase inúmeras vezes repetida nos meios de comunicação: “Isto ele vai carregar pelo resto da vida”. Realmente não precisa ser mais assim.

Referências Callahan, R. J. e Callahan, J. Thought Field Terapy and Trauma: Treatment and Theory. Indian Wells: Thought Field Therapy Training Certer, 1996. Dilts, R. Roots of Neuro-Linguistic Programming. Cupertino: Meta Publications, 1976. Gallo, F. Energy Psychology: Explorations at the Interface of Energy, Cognition, Behavior and Health. Boca Raton: CRC Press, 1999. NLP Comprehensive. The Aligned Self. Boulder: NLP Comprehensive, s.d. O´Connor, J. e Seymour, J. Intodução à Programação Neurolingüística. São Paulo: Summus, 1995. Wylie, M. S. Going for the cure. The Family Therapy Networker, 20 (4), July, August, 1996.

http://www.metaprocessos.com.br/traumatologia-emocional-o-alivio-rapido-de-traumas-e-do-estresse-pos-traumatico/

Posts
Posts recentes
Siga-nos
Procure pelas tags
Arquivo
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square